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Rafael Capanema

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Inferno astral não existe, amizade sim

Rafael Capanema

16/08/2019 18h54

Li esses dias no Twitter alguém dizendo que não adianta tirar sarro de terraplanismo se você acredita em astrologia. Faz sentido, mas, olha, se os terraplanistas tivessem um histórico de acerto tão impressionante quanto o da Susan Miller (provavelmente a astróloga mais famosa do mundo), talvez hoje eu estivesse junto com o guru do governo federal, Olavo de Carvalho, me perguntando "será que esta desgraça não é mesmo plana?".

Mas mesmo diante da precisão da Susan Miller e do fato de eu me identificar bastante com as características principais do meu signo (virgem), gosto de pensar que sou cético e que a astrologia é uma pseudociência. Daí que foi muito engraçado quando eu descobri que, segundo a astrologia, hmm, séria, não existe inferno astral — aquele período de um mês que precede o seu aniversário e durante o qual tudo parece dar errado. Ou seja: é um conceito tão chumbrega que não é reconhecido nem por uma doutrina que tem pouquíssima credibilidade. Humilhante demais.

Mas o meu ceticismo foi novamente colocado à prova quando me vi passando por uma série de mini-humilhações nestes dias que antecedem meu aniversário (9 de setembro). Só podia ser inferno astral.

Há mais ou menos um mês, descobri que as minhas dores constantes nas costas eram culpa de uma hérnia de disco. O médico examinou a ressonância magnética com cara de "meus pêsames" e "tão jovem, coitado". Disse que era caso de cirurgia. Só que a recuperação do procedimento demora de três a quatro meses, e ainda assim o problema pode voltar. Ainda segundo o médico, porém, a cirurgia não é obrigatória desde que a dor esteja sob controle. É mais ou menos como aquela placa famosa cuja foto circula na internet: "É proibido, mas se quiser pode."

Comecei a tratar a hérnia com fisioterapia e tenho alternado dias de dor tolerável, dor quase imperceptível e dor incapacitante, como a que me acometeu nesta terça-feira.

Depois de uma segunda-feira quase indolor, acordei no dia seguinte com bastante dor e com o tronco mais torto que a torre de Pisa. E isso era só o começo do meu dia de inferno astral. No almoço, a pizza que eu tentei fazer grudou no forno, queimou, encheu a casa de fumaça e meus olhos de lágrimas. Não vi que meu cachorro tinha se aliviado na sala e pisei gostoso de meia no mijo. Até fiz uma enquete no Twitter perguntando se o dia de todo mundo tava sendo tão horrível quanto o meu, mas acabei desconsiderando o resultado (47% de respostas positivas) porque o Twitter é uma rede triste onde todo dia é dia de querer morrer.

No dia seguinte, quarta-feira, a dor piorou. Decidi ir ao pronto-socorro. Quem me levou até lá foi um taxista colombiano chamado Giovanni, que, por coincidência, tem uma hérnia no mesmo lugar que eu (L4/L5), mas hoje não sente mais dores e leva uma vida normal. Durante o trajeto, ele me contou tudo sobre o tratamento dele, anotou num papelzinho os remédios que amenizavam suas crises e me deixou seu telefone, pedindo que eu ligasse pra contar quando eu estivesse melhor. Obviamente não estou me automedicando de acordo com a "receita" do Giovanni (venho seguindo as orientações dos médicos e dos fisioterapeutas), mas, além de ficar comovido com a gentileza, aproveitei pelo menos uma dica dele: comprei uma faixa lombar como as que os operários usam, com suspensórios, que alivia bastante o desconforto. Graças a ela, aos remédios e às três injeções que eu tomei na quarta-feira, minha dor chegou ao fim de semana sob controle.


A "receita" do taxista Giovanni.

 

Também entrei num grupo de Facebook sobre hérnia de disco cujos membros se referem uns aos outros carinhosamente como "meus amigos doloridos". Uma amiga me recomendou a fisioterapia do postinho de saúde aqui do lado de casa. Minha prima fisioterapeuta me manda áudios com orientações. E, em um dos meus grupos no WhatsApp, meus amigos, preocupados com a minha hérnia, passaram a mandar mensagens de duas em duas horas com um lembrete pra eu me levantar da cadeira e dar uma alongada.

Inferno astral talvez não exista mesmo. Mas amizade existe, sim. Nunca concordei tanto com os Trapalhões, com o Chitãozinho e com o Xororó: é tão bom ter amigos.

Sobre o Autor

Rafael Capanema é formado em jornalismo. Trabalhou na Folha de S.Paulo e no BuzzFeed. Paulistano, mora em Madri desde 2015.

Sobre o Blog

Um espaço para entreter, tendo sempre o humor como norte, a partir da minha experiência como redator de entretenimento, repórter de tecnologia e autor de blogs nos primórdios.