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Rafael Capanema

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Carne, queijo, presunto e crime: uma breve história do cachopo

Rafael Capanema

15/04/2019 17h22

O cachopo (Foto: Rafael Capanema)

O cachopo é um prato originário das Astúrias (norte da Espanha), que consiste em dois filés enormes de carne bovina, bem fininhos, recheados com presunto e queijo, empanados e fritos, e geralmente acompanhados por batata frita e pimentão (estes dois últimos servem "pra ajudar na digestão", como escreveu Guillermo del Palacio).

Servido geralmente em casas de cidra (sidrerías) asturianas, virou moda na Espanha mais ou menos na mesma época em que eu vim morar em Madri, em 2015.

Mas a moda do cachopo é diferente das modas gastronômicas globais, como o ceviche e o poke. É uma moda ogra, que já nasce meio démodé. Uma moda muy española.

Como você deve ter notado, o prato não tem nada de especial. É mais ou menos um frango à cordon bleu com carne bovina em vez de carne de galinha. "Uma aberração absoluta, uma forma estupenda de estragar uma boa carne, um bom presunto e um bom queijo", como disse o redator-chefe da seção de cultura do jornal "El Mundo", Alberto Luchini, em um vídeo recente do "El Comidista", a ótima seção de comida do "El País".

Eu vinha acompanhando o zunzunzum do cachopo desde 2016, mas ainda não o havia provado. Em fevereiro de 2017, perto de casa, tirei uma foto deste lambe-lambe, anunciando o ganhador do prêmio de melhor cachopo da Espanha, concedido pela Academia Espanhola de Amigos do Cachopo, ao restaurante A Cañada Delic Experience:

(Foto: Rafael Capanema)

Guardei o endereço no Google Maps, mas estranhei a pontuação baixa (2,9 estrelas de cinco possíveis). Acabei indo conhecer o prato em restaurantes mais bem avaliados e, depois de uma primeira impressão pouco animadora, me rendi e virei um cachoper. Hoje tenho pelo menos três cachopos preferidos na cidade.

Só fui ouvir falar de novo no tal do Delic-não-sei-das-quantas numa reportagem em vídeo do site "Sin Filtros", em junho de 2017: "El CachopoGate", de longe o melhor documentário que eu já vi sobre comida empanada.

A reportagem descobriu que a Academia Espanhola de Amigos do Cachopo não existe: foi inventada por um picareta chamado César Román só pra dar o prêmio de melhor cachopo da Espanha pra ele mesmo, dono do A Cañada.

Ele bolou a fraude depois de tentar subornar o Guia do Cachopo, essa sim uma referência confiável no mundo do cachopo, com critérios bem definidos e um júri de 20 pessoas.

Há mais de 20 anos, Román se envolve em trambiques e falcatruas em diferentes áreas: jornalismo, política, gastronomia. Alguns anos atrás, inclusive, ele tinha criado a Real Confraria dos Amigos do Polvo Galego, com o objetivo de… você adivinhou: premiar o polvo galego que ele mesmo fazia.

Mas como Román conseguiu enganar tanta gente com a história do cachopo? Simples: disparando um press release (comunicado de imprensa) sobre o falso prêmio pra vários veículos de mídia. Muitos deles simplesmente reproduziram a novidade curiosa, sem averiguar os critérios da tal Academia ou mesmo a sua existência. Segundo o "Sin Filtros", a notícia saiu em mais de 30 publicações em escrito (sites, jornais, revistas) e cerca de 20 programas de rádio e TV.

Antes de ser descoberto, Román, que ficou conhecido como o "rei do Cachopo", chegou a operar cinco restaurantes ao mesmo tempo. Fugindo de dívidas, desapareceu em julho de 2018. Foi encontrado e preso em novembro do mesmo ano, trabalhando como cozinheiro em Zaragoza, mais magro, barbado e sob o nome falso Rafael Luján.

Em agosto, o corpo de sua então namorada, Heidi Paz, havia sido encontrado esquartejado dentro de uma mala. O principal suspeito do assassinato é César Román.

César Román e Heidi Paz (Foto: Reprodução)

 

Sobre o Autor

Rafael Capanema é formado em jornalismo. Trabalhou na Folha de S.Paulo e no BuzzFeed. Paulistano, mora em Madri desde 2015.

Sobre o Blog

Um espaço para entreter, tendo sempre o humor como norte, a partir da minha experiência como redator de entretenimento, repórter de tecnologia e autor de blogs nos primórdios.